O professor, Parte I
Assim que entrei pela porta do pub mal iluminado o avistei. Ele fora meu professor nos primeiros anos da universidade e, lembro bem, sempre o admirei por ser mais inteligente que a maioria das pessoas que eu conheço e ele sabe disso. Acho que é por esse motivo que ele sempre tem aquela expressão blasé, aquele meio sorriso que faz você pensar “droga, ele está rindo da minha burrice” e, principalmente, aquele ar de arrogância. Essa, posso dizer, é a única característica que me faz odiá-lo por cinco minutos. Naqueles anos iniciais, me identifiquei com esse professor porque eu gostava de filosofia, arte, música e tinha sede por conhecimento. Sempre que escutava as pessoas conversando sobre algum assunto que desconhecia e/ou não tinha opinião, corria pra casa e ia direto para a internet pesquisar. E ele adorava esse meu jeito de ser, simplesmente. Como eu disse, eu ERA assim.
Sentei na mesma mesa que ele e o olhei a tempo de ver sua expressão de espanto.
- Posso sentar aqui? Ou você está esperando alguém? – soei meio inconveniente, eu sei. Com aquele meio sorriso, ele respondeu:
- Pode, é claro. Não estou esperando ninguém.
E uma hora se passou com uma conversa despretensiosa a qual não conseguia me concentrar totalmente, ficava olhando-o e admirando-o. Assuntos do tipo, família, vida e trabalho estavam no meio da conversa. Ele tomando Whisky e eu Cosmopolitan. Estava esperando ansiosa a hora que ele ia começar a falar sobre assuntos cult e eu não iria saber responder à altura, no entanto esses assuntos iriam me fazer devanear e admirá-lo ainda mais.
Então ele começou a citar Adorno, naquela forma revoltada contra a sociedade. Creio eu, ele falou que não conseguia se conformar com uma sociedade alienada, jovens irresponsáveis, capitalismo exacerbado e cultura to sell. Vez e outra pedia-me desculpas por estar falando daquele jeito rebelde e por falar palavras em inglês, alemão e francês sabendo que eu não entenderia. Que cavalheiro. Chegou a hora que eu temia, como se estivesse me acordando de um pesadelo, ele perguntou:
- Você concorda comigo? Concorda com esse conceito de Indústria Cultural?
O que eu respondo agora? O que vou dizer a ele? Faço uma brincadeira com a coloração loura de minhas madeixas? Ou digo apenas que sim? Optei por contar a verdade, ou quase a verdade.
- Não sou mais aquela garota que você conheceu. Não me interesso mais por Indústria Cultural, Escola de Frankfurt, filosofia, etc. Sou uma garota burguesa, agora. Gosto de moda, comédias românticas e até frequento o salão de beleza. Em suma, troquei Nietzsche por Meg Cabot. Sou burra e alienada como a maioria da sociedade que você despreza. Acho que você não vai mais querer ser meu amigo.
Sério, me deu uma vontade tremenda de rir ao olhar sua expressão que nem sei descrever. Era uma mistura de assombro, espanto e indignação. Controlei-me, dei de ombros, sorri e tomei um gole de meu Cosmo. Ele tomou um gole de sua bebida e pediu outra rodada para o garçom. Ficamos ambos calados por, mais ou menos, cinco minutos. Ele, é claro, quebrou o gelo:
- Burra, sei que você não é. E não, não vou deixar de ser seu amigo. No entanto, não consigo acreditar nisso. Você era uma aluna excepcional, até onde me lembro. Sempre tirou boas notas, sempre frequentou os lugares mais undergrounds da cidade, queria ser a Lou Salame só para viver um romance com o Nietzsche e compartilhava de muitas das minhas opiniões. O que aconteceu pra essa mudança?
- Obvio que estou exagerando. Ainda leio filosofia, literatura e meu amor por Nietzsche não morreu, mas meu lado feminino falou mais alto e agora tenho uma paixão alucinante, principalmente, por moda. Vou falar uma coisa que, com certeza, vai fazer você mudar de opinião em relação a ser meu amigo. Eu gosto da saga Crepúsculo e adoro a Lady Gaga.
Isso foi uma facada em seu coração, mas se recompôs e me olhou perplexo.
- Aceito nossas diferenças. Mas olhe pra você. Você não é assim, isso é apenas uma fase. Estou olhando pra você e enxergando isso. Você vai se cansar de querer parecer burra e alienada (nessa hora, fez aspas com as mãos), de ser só mais uma garota normal. – ele falou com uma convicção que quase me fez acreditar.
- Não estou tão certa quanto você. Eu gosto, de verdade, de moda, maquiagem, sapatos, bolsas e, quando crescer, quero ser igual a Grace Kelly.
- Não duvido e eu gosto da nova você. Mas percebo que você ainda gosta das outras coisas. Você só precisa aprender a conciliar essas duas coisas. Também precisa sair mais vezes comigo, para que eu possa lembrá-la de quem você realmente é.
Elle Fanning LOVERS
Esse vai ser o meu feriado de Carnaval
forever in my dreams


